Domingo, 5 de setembro de 2010
Artigos

Psicoterapia e Apoio Terapêutico a Pacientes com Câncer
- Maurício Tatar, Humbertho Oliveira, Marly Chagas, Susana Hertelendy, Vania Didier -

Trabalho Apresentado no Terceiro Congresso Internacionalde Psico-oncologia, em outubro de 1996, New York

I - APRESENTAÇÃO

Nossa intenção, nesse artigo, é apresentar de uma maneira sintética, nossas reflexões e experiências acerca do acompanhamento terapêutico a pessoas com doenças físicas graves e/ou terminais - em particular aquelas com câncer e suas famílias, experiências desenvolvidas por nós através de vários projetos no QUIRON - Centro de Estudos e Práticas Transomáticas no Rio de Janeiro, Brasil.

Primeiramente apresentamos o QUIRON - instituição organizada e coordenada por nós e fonte das direções dadas a esse trabalho. Nossos princípios teóricos e filosóficos, especificamente nessa área, estão relacionados aos seguintes temas: conceitos de saúde; psicossomática e psicoterapia corporal; musicoterapia - suas possibilidades; a doença e suas diversas manifestações e significados ocultos; impermanência e consciência.

Em segundo lugar, ilustramos nosso trabalho de acompanhamento a pessoas com doenças físicas graves e/ou terminais, apresentando um estudo de caso clínico em atendimento psicoterapêutico individual seguido de alguns comentários teóricos básicos; depois, descrevemos nosso trabalho no setor de psicologia e musicoterapia da AACN (Associação de Apoio à Criança com Neoplasia) - Casa Ronald McDonald, no Rio de Janeiro.

E, finalmente, nós descrevemos o contexto sócio-econômico-cultural brasileiro relacionado a esse tipo de trabalho e a outros serviços correlatos.

II - NOSSA INSTITUIÇÃO

1) APRESENTANDO O QUIRON

O QUIRON - Centro de Estudos e Práticas Transomáticas foi fundado em 1990, no Rio de Janeiro, Brasil, por profissionais ligados à área de psicoterapia somática, com o objetivo de pesquisar temas e práticas educativas, relativas à promoção da saúde e ao desenvolvimento do potencial humano e baseadas primordialmente na inter-relação entre o somático, o psíquico e o espiritual.

Nesse caminho, sempre nos interessaram as questões humanas ligadas ao desenvolvimento emocional primitivo (período gestacional e do nascimento), ao desenvolvimento do potencial criativo, às noções de valores éticos, ao estudo do complexo emocional das crises vitais, aos fenômenos ecológicos e culturais e à experiência diante das doenças e da morte, situações essas que nos parecem indelevelmente associadas aos acontecimentos corporais, psicológicos e da espiritualidade humana.

Parte das nossas atividades tem se voltado ao estudo filosófico e de práticas preventivas e terapêuticas relacionadas ao processo do adoecimento e da morte. Temos contribuído com trabalhos que apresentam diversas modalidades na prática do acompanhamento psicoterapêutico a pessoas com doenças graves e terminais - especialmente aquelas portadoras de câncer -, às suas famílias e às instituições que se organizam para cuidar desses problemas.

2) ATIVIDADES DESENVOLVIDAS NO QUIRON LIGADAS AO ESTUDO E À PRÁTICA DO ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO PESSOAS COM DOENÇAS FÍSICAS GRAVES E/OU TERMINAIS

--> Atendimento em Psicoterapia Individual e em Grupo para Pessoas com Doenças Físicas Graves - desde 1990.

--> Ciclo de Palestras "Energia e Cura" - dentre outras, a mesa redonda "A Morte e o Morrer" - coordenada por Susana Hertelendy (coordenadora do QUIRON), Vania Didier (coordenadora do QUIRON), Helion Póvoa Filho (médico orto-molecular) e Remo Rotella Júnior (psiquiatra) - junho de 1990.

--> Revista "Energia e Cura" - dentre outros, os artigos "A Morte como Processo Iniciático", de Vania Didier e "Momento Planetário de Transformações e o Grupo QUIRON", de Susana Hertelendy - outubro de 1990.

--> Mesa Redonda "Mitos de Cura e Transformação" - coordenada por Marly Chagas (coordenadora do QUIRON), Lays Rocha (mãe de santo) e Janine Milward (astróloga) - março de 1991.

--> Vídeo-Debate "Vivenciando o Morrer", apresentando os vídeos "AIDS Life & Love" e "Kübler-Ross: her ideas and beliefs" - coordenado por Humbertho Oliveira (coordenador do QUIRON) e Susana Hertelendy - junho de 1991.

--> Grupo de Suporte Psicoterápico para Pessoas Soro-positivas para o Vírus da AIDS - coordenado por Humbertho Oliveira e Susana Hertelendy - 2o. semestre de 1991.

--> Setor de Atendimento Psicoterápico e Assessoria a Instituições para Pacientes com Doenças Físicas Graves - supervisionado por Humbertho Oliveira e Susana Hertelendy - a partir de 1992.

--> Grupo de Estudos e Pesquisa sobre a Prática Clínica com Pacientes Portadores de Doenças Físicas Graves - coordenado por Humbertho Oliveira, Maurício Tatar (médico homeopata-acupunturista), Susana Hertelendy e Vania Didier - a partir de 1992.

--> Encontro Reflexivo "Vivências Pessoais do Terapeuta que Acompanha Pacientes Terminais" - coordenado por Ann Bowman (diretora do Transformational Energetics and Arts Inc., New York) - julho de 1993.

--> Setor de Psicologia e Musicoterapia na Associação de Apoio à Criança com Neoplasia - coordenado por Marly Chagas - a partir de 1995.

--> Treinamento Introdutório à Prática do Acompanhamento à Pessoas com Doenças Físicas Graves - coordenado por Susana Hertelendy e Vania Didier - durante o ano de 1995.

--> IIº Ciclo "Energia e Cura" : "A Doença como Caminho de Cura - novas perspectivas de assistência terapêutica às pessoas que passam pelo processo do adoecimento e da morte" - coordenado por Humbertho Oliveira, Marly Chagas, Maurício Tatar, Susana Hertelendy e Vania Didier - outubro de 1995.

--> Trabalhos apresentados no IIº. Congresso Brasileiro de Psico-oncologia: "Experiência Psicossocial numa Instituição de Apoio à Criança com Câncer e sua Família" - autores: Marly Chagas, Humbertho Oliveira, Ângela Machado (psicóloga e fonoaudióloga)-, Elizabeth Faria (psicóloga e psicoterapeuta), Rita Lesiet (psicóloga e psicoterapeuta) e Jacila Silva (musicoterapeuta);

"A Doença como Caminho de Cura" (autores: Humbertho Oliveira, Maurício Tatar, Susana Hertelendy e Vania Didier) - abril de 1996.

III - NOSSO TRABALHO

1) UMA ABORDAGEM CLÍNICA

J.A. procurou-me em 26/08/91. Era portador de um câncer linfático que se manifestara na região sub-mandibular dois anos antes. Havia feito terapia junguiana e freudiana por mais de vinte anos. Ao procurar-me, disse estar interessada em explorar um outro tipo de abordagem terapêutica e, como tinha tido informação de que eu trabalhava "com o corpo", resolvera tentar algo diferente, apesar, segundo ela, dos seus setenta e cinco anos.

Tinha, até então, tido uma vida profissional ativa e produtiva. Fora uma das primeiras alunas a se formar em Assistência Social pela Universidade católica do Rio de Janeiro (PUC). Estivera, a serviço, em diversos países: Venezuela, Filipinas, Japão, EUA, - onde estudou e trabalhou durante dez anos na ONU e OEA.

Nunca se casara. Aos cinqüenta anos resolveu adotar uma menina, a quem dedicou intensa afeição - sua primeira busca terapêutica ocorrera em função da necessidade de entender melhor as necessidades da filha e de atualizar seus conceitos de educação já que, filha de uma família tradicional do Ceará, sentia-se muitas vezes, com dificuldades em lidar com a menina de uma maneira mais liberal e permissiva.

J.A. tinha consciência do quanto a sua própria educação, com pouco contato físico, exigência de performance e repressão à sexualidade havia contribuído para a sua dificuldade em sentir o seu corpo, expressar emoções mais ternas e exacerbara a agressividade e as defesas racionais e intelectuais. Uma rígida couraça encobrindo uma profunda ânsia de amor e ternura...

Quando lhe propus o grupo, após alguns meses de terapia individual, rejeitou, a princípio, achando que as pessoas só veriam nela uma imagem de mãe ou de avó... e não era assim que queria ser vista... Era vaidosa, cuidadosa com a aparência e, vez por outra, demonstrava que sua sexualidade estava bem viva.

O grupo era constituído por pessoas com questões ligadas a necessidades de integração e amadurecimento de seus aspectos psico-emocionais e, também, portadores de doenças mais graves como AIDS e Câncer.

Trabalhamos em vários níveis: somático/emocional - dentro de uma abordagem neo-reichiana e transpessoal, através de reflexões e vivências que abordavam os temas que perpassavam a situação existencial de cada membro do grupo: doença/saúde, vida/morte, medo de viver/medo de morrer, impermanência, separação/solidão, feridas emocionais na infância e seu reflexo na vida adulta.

J.A. freqüentou o grupo até dois meses antes de sua morte. Nos últimos meses, manifestara-se, em função dos tratamentos quimioterápicos/radioterápicos, uma acentuada queda imunológica com o conseqüente aparecimento de infecções oportunistas. Pneumonia, herpes na região intercostal debilitaram-na e ocasionaram dores que antes não sentia... Mesmo assim procurava não faltar às sessões que considerava de vital importância naquele momento em que uma transição crucial anunciava-se... De vez em quando perguntava-me se estaria ao seu lado até o fim. Nas últimas semanas - quando o câncer atingiu a região cerebral - ia visitá-la no hospital e depois em casa e passávamos longos momentos de mãos dadas, silenciosas, apenas nos olhando.

J.A. atravessou os portais para o vasto desconhecido no dia 26 de novembro de 1995. As filhas e as netas que tanto amava estiveram ao seu lado até o fim.

Sua luta, sua coragem, fragilidade e força - que ela própria tinha dificuldade em reconhecer e aceitar - serviram de inspiração a todos no grupo.

2) COMENTÁRIOS TEÓRICOS BÁSICOS ACERCA DO NOSSO TRABALHO NO QUIRON

De uma maneira geral, a saúde é encarada como se fosse um estado de não-doença, de não mal-estar ou dor, quando o indivíduo pode continuar a levar a sua vida sem grandes alterações ou questionamentos. É muito mais fácil tomar um medicamento para aliviar uma dor, do que compreender a mensagem que o organismo está sinalizando. Somos muito imediatistas, tratamos apenas das aparências, não buscamos a origem ou as causas de nossas doenças.

Saúde e doença são aspectos de um mesmo movimento. Através do desequilíbrio atingimos novo equilíbrio, uma nova freqüência, um novo patamar energético. No período de transição para esse novo padrão, vivencia-se a doença. Ela não é considerada como algo estranho mas, sim, a conseqüência de um conjunto de fatores que culminam em desarmonia e desequilíbrio. É através da doença que alcançamos saúde. Verifica-se, com uma certa freqüência, em pacientes com doenças graves ou terminais, relatos acerca de estarem vivendo melhor ou mais saudavelmente, a partir do momento em que se conscientizaram de sua doença.

A função básica do terapeuta está em espelhar a verdade para o paciente, ajudá-lo a desenvolver uma consciência do processo de vida e dos mecanismos (obstáculos e ilusões) que se criam para gerar a doença; e, também, em poder ajudá-lo a entrar em sintonia com seus próprios recursos de cura, possibilitando o resgate da auto-estima, da aceitação e do perdão.

Câncer linfático, herpes zoster, fortes dores... "A doença é o lado sombrio da vida, uma espécie de cidadania mais onerosa. Todas as pessoas vivas têm dupla cidadania, uma no reino da saúde e outra no reino da doença. Embora todos prefiramos usar somente o bom passaporte, mais cedo ou mais tarde, cada um de nós será obrigado, pelo menos por um curto período, a identificar-se como cidadão do outro país. (...) Meu ponto de vista é que a doença não é uma metáfora e que a maneira mais honesta de encará-la - e a mais saudável de ficar doente - é aquela que esteja mais depurada de pensamentos metafóricos..." (Susan Sontag)

Trabalhar "com o corpo" em psicoterapia implica utilizar o conceito de "Unidade Funcional" ou "Identidade Básica", criado por Wilhelm Reich, onde se considera que a fonte de todos os acontecimentos humanos é a bionergia, ou orgon. Isso significa que as atitudes corporais e as atitudes mentais-emocionais se correspondem, podendo substituir-se e influenciar-se mutuamente.

Cada região do corpo, além de prestar-se a uma determinada função vivente, pode servir para representar uma zona específica de conflito, conflito energético entre o psíquico e o somático. Esses conflitos são cargas emocionais relacionadas a acontecimentos vitais do passado, os quais, mal "metabolizados", permanecem e atualizam-se, criando obstáculos diversos à vida. Quando mobilizados, podem liberar ou distribuir energia, facilitando a consciência das circunstâncias vividas, a expressão emocional, antes contida, e a organização de um novo modus vivendi psico/corporal.

O nível "somático emocional" é o nível da interação mente/corpo/energia. Nesse nível podemos criar relações entre as diversas regiões do corpo afetado e a expressão de conteúdos subjetivos. E assim, podemos observar que, mobilizando o movimento respiratório irregular, o silêncio peristáltico, a contração ocular e as diversas disfunções organísmicas, possibilitaremos o encontro com os sentidos mais profundos da gênese da doença de uma pessoa. E restabelecendo o ritmo respiratório espontâneo, os sons peristálticos rítmicos, o contato ocular descontraído, em síntese, o estado natural do organismo humano, estaria a pessoa ambientando um novo campo energético onde basear a sua saúde.

Um acompanhamento terapêutico baseado numa visão da integração do organismo pode, pois, propiciar uma busca mais profunda do sentido da cura.

O nível "transpessoal" é o que integra o somato-psíquico ao espiritual. Nessas visões, como na de David Boadella, dá-se uma grande ênfase ao grounding espiritual e aos estados transpessoais, reconhecendo-se que o trabalho psicossomático abre conexões para além do físico. O trabalho terapêutico, dentro de perspectivas que consideram a questão "espiritual", requer uma profunda reflexão sobre a relação entre o terapeuta e seu cliente. Ressonância, empatia, amor de transferência, tele são conceitos diversos para falar da mesma e necessária humanidade dessa relação.

Conceitos como o de "inner-ground", "self", eu superior e outros fazem referência a uma realidade essencial, relacionada à presença e ao ser mais profundo em cada um de nós.

Haveria, pois, na experiência de estar doente e/ou de morrer, um sentido espiritual de contínuo aprendizado.

Nesse sentido, poderia haver um grande amparo no processo de adoecimento e de morte de uma pessoa se ela experimentasse a presença de um outro corpo/espelho/apoio/contato a estimular-lhe a vida. Como terapeutas, e como seres humanos também sujeitos às mesmas experiências, precisamos encontrar vias em nós mesmos e nos prepararmos para exercer essa forma de ajuda/troca.

Além dos pressupostos filosóficos cartesianos que norteiam nossa percepção do ser humano, temos ainda, de quebra, uma orientação narcisista que determina que vivamos voltados para a criação de uma auto-imagem em que status econômico, perfil de uma personalidade bem sucedida socialmente, beleza e tentativa de prorrogar a juventude indefinidamente constitui-se em um imperativo a que dificilmente nos esquivamos... Envelhecer, morrer... Ah!, pecado narcísico que derrota nossa onipotência e nossa tentativa de impor à natureza nossas aspirações de poder e imortalidade!

A mudança de paradigmas se reflete inevitavelmente na linguagem, motivo pelo qual os significados de um momento histórico poderão ser ambíguos e até obsoletos. É o que ocorre atualmente. Assim se reconhecermos que a alteração de comportamento e atitudes tem como pré-requisito a compreensão dos conceitos subjacentes às palavras que se descrevem numa determinada língua, a coerência e integridade exigirão sempre uma reflexão profunda sobre os sentidos das mesmas. É nesse sentido a importância de se rever o que representam termos como saúde, doença, cura, vida e morte. A doença, para citar um exemplo, foi através da história e, ainda é hoje em dia em várias culturas, entendida como ponto entre dois estados de consciência; como qualquer crise, é reconhecida universalmente como processo de transformação e rito de passagem.

Atualmente já é comum aceitar que em uma transição de vida, é possível harmonizar o tratamento tradicional com o alternativo, a visão médica com a psicoterapêutica e a espiritual, no sentido tanto de se obter uma visão mais ampla e mais integrada do nosso processo individual, como de se assumir com mais serenidade uma administração própria em relação aos caminhos a seguir nas decisões exigidas por tal transição.

Freqüentemente descrita como entrada em outra realidade, acima de tudo, poder-se-ia dizer que a doença tem um sentido muito pessoal para cada um, a cada momento de indagação.

Além disso, tal como no caso de problemas emocionais - e pelas teorias sobre energia, é comprovada a relação existente entre ambos esses estados (patologia/emoção; emoção/patologia) -, ela proporciona um contato com outras dimensões do ser, talvez negligenciadas, trazendo um confronto com a "sombra" do indivíduo em questão, para usar o conceito junguiano de arquétipos.

Mas as leis que regem nossa realidade física são inexoráveis. Todos os elementos que um dia se agregam para compor a forma, um dia, nunca se sabe quando, se desagregam.

Nossa insegurança básica faz com que evitemos, neguemos a finitude de nossa existência física e, assim, nos furtemos à preparação, tanto emocional como espiritual para a mais certa entre todas as incertezas que permeiam a nossa existência.

3) ATIVIDADE INSTITUCIONAL (trabalho desenvolvido através da AACN - Associação de Apoio à Criança com Neoplasia, Casa Ronald McDonald, Rio de Janeiro, Brasil)

A Casa Ronald McDonald - RJ, ligada à Associação de Apoio à Criança com Neoplasia, tem como objetivo principal possibilitar à criança com câncer, que não reside na cidade do Rio de Janeiro, uma hospedagem que facilite a continuação de seu tratamento no regime ambulatorial do Hospital onde se trata. A Casa pode hospedar vinte crianças ou adolescentes, cada qual acompanhado de um responsável. Para alcançar seu objetivo a Casa conta com a colaboração de voluntários que desempenham diversos serviços, desde a direção da Casa até o cuidado com as crianças.

Setor de Psicologia e Musicoterapia da Casa Ronald McDonald:

--> Atividades realizadas com os voluntários:

Grupos operativos - reflexão sobre a tarefa e compartilhamento de experiências pessoais vividas no trabalho

Atendimento S.O.S. - encaminhamento para assistência psicológica quando necessário

Treinamento - palestras informativas e treinamentos específicos.

Nossa primeira ação foi a de promover um encontro com os voluntários investigando, através de uma dinâmica com o grupo, as cenas temidas e os "fantasmas" escondidos atrás da insegurança no trato com a criança. Verificamos: 1 - grande ansiedade justificada pelo fato de estarem lidando com crianças que sofrem e que vivem tão próximas da morte; 2 - auto-exigência exacerbada; 3 - dificuldade em reconhecer e lidar com as próprias emoções ligadas a essa tarefa.

Numa camada mais superficial do problema, estavam as questões envolvidas no lidar com crianças: os limites a serem dados, o atendimento aos interesses específicos delas, ao seu crescimento; questões conscientes que implicavam em obter informações e em se dispor à aproximação dos diversos problemas. Mas, numa camada mais profunda, estavam as motivações inconscientes, pessoais, o contato com a vida e com a morte, com o abandono e com a solidão. Precisávamos atuar nos dois níveis de necessidades. Utilizamos o modelo de grupo operativo, técnicas de dinâmica de grupo e recursos das terapias corporais e da musicoterapia com a finalidade de proporcionar o contato de cada um com sua própria forma de ser, com suas emoções e o contato de uns com os outros.

Os voluntários que visitam as crianças no hospital têm-se constituído no elemento fundamental da ajuda à elaboração da dor dos pais. Exercem também o papel de agentes de saúde mental devido às oportunidades de funcionar como elo entre o hospital e a Casa e de intermediar a comunicação entre os pais e os médicos.

--> Atividades realizadas com os pais/responsáveis pelas crianças:

Grupo de suporte - reflexão sobre a tarefa de cuidar de um filho doente compartilhamento das experiências vividas

Atendimento psicoterapêutico individual ou junto com o filho

Os responsáveis pelas crianças da instituição demonstram uma grande necessidade de compartilhar, num ambiente protegido, as lutas, desventuras e esperanças com relação à doença de seus filhos. São pessoas de situação econômica muito precária que trazem uma garra de viver impressionante.

Nosso objetivo é o de oferecer um espaço para compartilhar o sentimento de dever cumprido - objetivando com isso o fortalecimento da interação amorosa com o seu filho; favorecer o escoamento da tristeza que surge; e possibilitar a troca de experiências que são tão enriquecedoras.Criamos, nesse grupo, um espaço onde se pode ser cuidada a tensão que surge ao se ter que lidar com as diversas facetas do tratamento da criança. Na condução do grupo utilizamos técnicas expressivas da psicoterapia de grupo e
das terapias corporais.

Temos constatado que os pais, nesse momento dramático, vivenciam atitudes que correspondem às descritas por Elizabeth Kübler-Ross acerca da reação das pessoas diante da própria morte. São elas: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação.

Ultimamente temos experimentado oferecer aos pais a vivência de técnicas ativas, massagem terapêutica, musicoterapia, teatro terapêutico, que facilitam o alívio das angústias pessoais e contribuem na elaboração dos conflitos vividos nessa situação.

--> Atividades realizadas com as crianças:

Grupos de suporte em Musicoterapia - reflexão vivenciada da experiência de estar doente e estimulação ao bem-estar.

Atendimento psicoterapêutico individual ou junto com o pai/responsável

O atendimento em musicoterapia é realizado por profissionais do QUIRON e estagiários da Faculdade de Musicoterapia do Conservatório Brasileiro de Música.

Pretendemos possibilitar à criança um espaço de exploração e comunicação não verbal intensamente emocional que é o permitido pelo setting musicoterápico. Observamos que através da exploração rítmico-melódica temos alcançado uma possibilidade de catarse e posterior alívio de tensões, principalmente das crianças muito pequenas.

A improvisação livre, a recriação musical e a composição são técnicas musicoterápicas que oferecem à criança vivências indispensáveis ao seu desenvolvimento psíquico: auto-estima, senso de segurança, poder criador e interação humana. O prazer, o lúdico, o cantar e o dançar, a possibilidade de expressar tristeza e esperança demonstram a importância desse trabalho.

A necessidade infantil de êxito e experiências prazerosas encontra na atividade musicoterápica enormes possibilidades de expressão. Rafael, por exemplo, menino de 7 anos, portador de hemiplegia, conseqüência de sua doença, trouxe, em sua primeira sessão, um relato sobre sua enorme tristeza pelo fato de não ter podido tocar mais flauta depois do surgimento de seu câncer. Agora poderia recuperar, na musicoterapia. Poderia recuperar aspectos saudáveis e criativos de sua personalidade infantil. Poderia experimentar a vida de novo, construindo estímulos favoráveis ao seu sistema psico-neuro-endócrino-imunológico.

É muito estimulante esse trabalho. Temos a consciência de que poucas experiências existem em psicologia e, também, em musicoterapia que atinjam a criança enferma em espaço não hospitalar. Esta é a grande beleza da Casa. A criança brinca, vê televisão, joga vídeo-game, come uma comida gostosa, sai para passear no Rio de Janeiro, vai ao teatro, ao cinema, ao zoológico, ao sítio. Está junto com seu pai, sua mãe, faz muitos amigos adultos que formam um tecido de sustentação à sua dor e ao seu sofrimento. Apostamos nas pulsações transformadoras de vida e é isso que nos empenhamos em construir.

IV - QUIRON E O ATUAL CONTEXTO SOCIAL, ECONÔMICO E POLÍTICO DO PAÍS

1) PSICOTERAPIA E CUIDADOS COM A SAÚDE NO BRASIL

- Um olhar atento a uma realidade sombria.

- O Brasil é um país periférico que passa por uma transição econômica particularmente difícil. Por trás de uma aparente estabilidade existem problemas sérios refletidos principalmente na área social. Assim a saúde não tem sido devidamente atendida, já que os fundos para a manutenção dos hospitais públicos são insuficientes e os salários dos profissionais de saúde defasados. Por trás da fachada de um governo que se propõem ao reequilíbrio das finanças e que se diz preocupado com o social, constata-se que a gestão atual desconsidera a opinião pública sobre as necessidades de financiamento para pesquisa, e pouca atenção dá tanto às solicitações de apoio provenientes dos serviços sociais em geral, como às demandas por melhores salários para funcionários públicos nas universidades.

Não nos cabe aqui aprofundar idéias acerca dos resultados dessas atitudes, nem elaborar sobre os estilos de governo e a administração dos fundos públicos. É importante, contudo, mencionar o aumento do desemprego, a migração contínua do interior para as grandes cidades - particularmente para o Rio de Janeiro e São Paulo -, o aumento significativo da violência urbana, o fechamento de hospitais públicos e a existência de um precário sistema de saúde pública. E, também, não podemos deixar de mencionar, o grande número de crianças, mulheres e homens pobres, doentes e analfabetos que dormem pelas ruas das cidades; os desempregados, sem casa para morar, sem terra para trabalhar, uma multidão de miseráveis seres humanos. Nem podemos esquecer dos índios, dos idosos, e das pessoas doentes e abandonadas que perambulam por todo canto, por todo o país, expondo a todo instante os seus destinos infelizes.

Nos últimos dez anos com o agravamento dessas circunstâncias e, com o aumento do número de pessoas de baixa renda carentes de assistência terapêutica, começaram a surgir vários grupos de terapeutas de diferentes oferecendo serviços acessíveis para quem não pode pagar o tratamento.

Em um primeiro momento, sete dentre nós, psicoterapeutas corporais, juntamo-nos e criamos essa instituição não governamental sem fins lucrativos. Ao longo desses anos, já com novos integrantes, fomos evoluindo em relação aos conceitos que norteiam os nossos princípios e objetivos, mas desde o início aceitamos clientes com pagamento simbólico. Com o tempo, fomos organizando workshops e eventos onde refletimos e discutimos sobre temas relacionados à doença e ao acompanhamento terapêutico nesses casos; há algum tempo é parte de nossas atividades treinar terapeutas e supervisionar seus trabalhos. Mais recentemente, criamos e coordenamos um serviço de psicologia e musicoterapia numa associação de apoio a crianças com câncer e suas famílias.

E, concluindo, estamos já há algum tempo procurando recursos financeiros que viabilizem a instalação de uma sede tanto para a ampliação dos nossos serviços de treinamento para profissionais da saúde, como para a criação de um Abrigo - no estilo dos Hospices da Inglaterra e dos Estados Unidos - capaz de oferecer internação ou cuidados ambulatoriais e assistência médica e terapêuticas, para pacientes de classe média e de classes menos favorecidas.

Estamos esperançosos quanto à concretização desses projetos num futuro não tão distante, mas enquanto isso, reconhecemos a importância do Terceiro Congresso Mundial de Psico-oncologia e de encontros similares que possibilitem a troca de experiências e idéias, que estimulem aprendizados capazes de beneficiar todas as nações de acordo com as necessidades específicas de cada uma.

Rio de Janeiro, Brasil, outubro de 1996.

Resumo do currículo dos autores

HUMBERTHO OLIVEIRA, Médico, Psicoterapeuta Somático, Fundador e Coordenador do Grupo Quiron - Centro de Estudos e Práticas Transomáticas, Psicoterapeuta da Associação de Apoio à Criança com Câncer.

MARLY CHAGAS, Psicóloga, Musicoterapeuta, Professora da Faculdade de Musicoterapia do Conservatório Brasileiro de Música e Professora convidada da Universidade Católica de Salvador. Coordenadora do Setor de Psicologia e Musicoterapia da Associação de Apoio à Criança com Neoplasia - Rio de Janeiro. Coordenadora do Quiron - Centro de Estudos e Práticas Transomáticas.

MAURÍCIO TATAR, Médico, com formação em Medicina Chinesa e Homeopatia, participação em cursos, palestras e grupos de estudo em Terapia Floral, Cromoterapia, Fitoterapia, Dietoterapia e Oligoelementos. Ministra cursos desde 1989 sobre estes temas.

SUSANA HERTELENDY, Psicóloga formada pela Columbia University, New York, EUA em 1975; Revalidação pela UFRJ, Rio de Janeiro, 1980; Psicoterapeuta Somática; Guest Trainer internacional do grupo Transformational Energetics, New York, EUA;
Fundadora e Membro do Quiron-Centro de Estudos e Práticas Transomáticas, RJ.

VANIA DIDIER, Psicóloga, Psicoterapeuta Somática, Fundadora e Coordenadora do QUIRON - Centro de Estudos e Práticas Trans-somáticas, RJ.

Rua Desembargador Isaias Bevilaqua, 878 - Mercês - CEP: 80430-040 Curitiba - PR
Tel/Fax: 55 41 3336-3947